PROAC Edital Fomento CultSP PNAB Nº 24/2024

Escute o álbum “Na Pancada Desvairada” do Grupo Anima
Acesse aqui o E-book “Na Pancada Desvairada” do Grupo Anima
O lançamento do álbum e livro Na Pancada Desvairada celebra os 35 anos de atuação do premiado Grupo Anima que faz música de câmara brasileira, mostrando ao longo de sua trajetória musical os entrelaçamentos entre as musicalidades populares tradicionais do Brasil, por intermédio das vozes dos instrumentos construídos por mestres da cultura popular, das musicalidades das culturas medievais e renascentistas ibéricas e seu instrumentário. Como fruto dessa celebração longeva, o Grupo Anima construiu o espetáculo musical Na Pancada Desvairada, que se transforma novo disco, seu décimo trabalho de carreira, com lançamento nas plataformas de streaming pela produtora e gravadora Kuarup no dia 24 de abril, sexta-feira. O álbum que tem versão em CD e livro, traz 18 músicas inéditas interpretadas pelo Anima, compostas e arranjadas por seus integrantes a partir das melodias anotadas por Mário de Andrade em sua Viagem Etnográfica na região Nordeste do Brasil, que aconteceu entre dezembro de 1928 e fevereiro de 1929. Entre as 18 canções do disco, duas composições: Desafio Em Martelo Agalopado e Aboio Final integram trechos de músicas registradas em áudio pela missão de pesquisas folclóricas, organizada por Mário de Andrade em 1938.
Ao celebrar mais de trinta décadas de atuação junto à cultura popular brasileira, o Grupo Anima traz este vasto material etno-histórico-musicológico para o campo da performance musical no âmbito da música de concerto onde os protagonistas são as vozes, as músicas e o instrumentário de origem afro-indígena-brasileira. Os oito integrantes do Grupo Anima traçam, neste projeto, uma linha em que os instrumentos brasileiros ouvidos por Mário como a rabeca, as gaitas de cabocolinho, a viola sertaneja e as percussões são os liames entre os mundos da medievalidade e dos cantadores e mestres ouvidos por um dos estudiosos mais importantes da história da música brasileira. O trabalho, que sai em livro com 120 páginas traz o CD encartado, também disponível nas plataformas digitais e formato e-book. O livro que em sua versão digital possibilita o acesso ao conteúdo pelo público cego, pelo fato de facilitar a leitura em aplicativos que trazem o recurso “Ler em voz alta”, contém informações em textos escritos pelos integrantes do Grupo Anima em português, inglês e imagens dos manuscritos de músicas recolhidas por Mário de Andrade além de fotos da Viagem Etnográfica, mantidas no acervo Mario de Andrade do IEB-USP (Instituto de Estudos Brasileiros).
O Grupo Anima tem se notabilizado por suas releituras das matrizes e matizes musicais brasileiras, estabelecendo conexões destas matrizes com suas fontes indígenas, africanas e ibero-medievais e renascentistas. A pesquisa musical de Mário de Andrade sempre foi para a trajetória do Grupo Anima um parâmetro e um vasto terreno para formação de seu repertório, um caminho ao revés do colonialismo impregnado na música de concerto. No entanto, este projeto é o primeiro dedicado exclusivamente ao polímata Mário de Andrade. Uma homenagem a este grande pensador da cultura brasileira que, em um momento crucial de nossa história, arregaçou as mangas e foi a campo ouvir os artistas do povo, buscando o povo no popular. O repertório do álbum amplia o impacto social dessas produções históricas, investigando instrumentos musicais atuais e os caminhos de seus construtores, mestres rabequeiros, violeiros, gaiteiros, e tamborzeiros, evidenciando seus saberes, na intenção de criar um registro artístico em um nível compatível com a sua importância histórica e cultural. O projeto é fundamentado no livro Na Pancada do Ganzá que celebra em um amplo estudo sobre a música do Nordeste, a artisticidade que impressionou fortemente Mário de Andrade, a exemplo dos cantadores e emboladores de coco como Chico Antônio, Odilon Jacaré e instrumentistas como o rabequeiro Vilemão Trindade ouvidos pelo poeta e musicólogo modernista. A publicação do livro Na Pancada do Ganzá é uma maneira de prestar homenagem a estes artistas populares e Oneyda Alvarenga encarregou-se da publicação póstuma deste material em seis volumes, assim divididos: Danças Dramáticas do Brasil (3 tomos), Música de Feitiçaria no Brasil, Os Cocos, As Melodias do Boi e Outras Peças.
Atualmente, os originais da colheita de Mário de Andrade estão guardados no IEB/USP (Instituto de Estudos Brasileiros) e a consulta a estas fontes primárias foram de importância central ao projeto para nortear questões estéticas e composicionais em relação à rítmica e ao caráter improvisatório dos cocos, por exemplo. O Grupo Anima faz uma revisitação deste vasto repertório propondo uma leitura pela ótica das matrizes e matizes da música afro-brasileira cruzando-as com aquelas da idade média e da renascença ibéricas. Inspiradas e inspirados no poema O Trovador, de Mário de Andrade, contido em seu livro de poemas Pauliceia Desvairada, finaliza com o mote “Sou um Tupi tocando um Alaúde”, publicado em 1922, para a devoração antropofágica da musicalidade medieval ibérica. A retomada deste projeto pelo Grupo Anima, agora pela perspectiva da música e dos instrumentos antigos e instrumentos ancestrais da cultura popular, tem em pauta um olhar hermenêutico e antropológico sobre a música registrada por Mário, levando em conta suas práticas e articulações estéticas onde os instrumentos musicais da tradição popular, os instrumentos antigos como a rabeca medieval, a harpa trovadoresca, as flautas medievais e renascentistas, são vistos como artefatos portadores de musicalidades intrínsecas que carregam em si, portas de entrada para mundos sonoros com “temperamento hermafrodita”, como diria Mário.
Repertório:
- Exú Ana / ÈṣùỌ`nà
Luiz Fiaminghi (1958), composição baseada na tradição oral afro-brasileira, cantiga do candomblé ketu, Salvador, Bahia / cantiga do candomblé ketu, transmitida oralmente por Bàbá Leandro Perez (Ilé Aláketú Àṣẹ Aira – Àṣẹ Batistini e Ilé Aláketú Yeye Kare Àṣẹ Ajagunan – TUVT), São Paulo, SP
- Desafio em Martelo Agalopado
Tradição oral brasileira, Bom Jardim, Rio Grande do Norte
- Aboio / Toada (romance) de Fabião das Queimadas / Quis dabit
Tradição oral brasileira, Barão do Rio Branco, Pernambuco / tradição oral brasileira, Natal, Rio Grande do Norte / MS. Las Huelgas, Hu, f. 159 (sécs. XIII-XIV), Burgos, Espanha
- Ghaetta
LBM Add MS 29987, n◦ 77 f. 55v-56 (séc. XIV)
- Romance da Bela Infanta
Tradição oral brasileira, Rio Grande do Norte e Paraíba
- Ai meu Balão, Belina / Con Amores, mi madre
Gisela Nogueira (1959), composição baseada na tradição oral brasileira, Paraíba / Juan de Anchieta (1462-1523). Cancionero Musical de Palacio CMP, n◦ 335 f. 231. (sécs. XV-XVI), Madri, Espanha
- Aboio Final / Êh Mariê / Manuel da Lapa
Tradição oral brasileira, Bom Jardim, Rio Grande do Norte / tradição oral brasileira, Bom Jardim, Rio Grande do Norte / Bom Jardim, Rio Grande do Norte
- Coco das Mulheres Gisela Nogueira (1959), composição instrumental baseada na tradição oral brasileira, Natal e Bom Jardim, Rio Grande do Norte
- Plange / Coco do Boi Tungão – Ôh-lililiô
MS Las Huelgas, Hu, f. 160 (sécs. XIII-XIV, Santa María la Real de las Huelgas), Burgos, Espanha / tradição oral brasileira, Bom Jardim, Rio Grande do Norte
- Moteto-Lamento Justino Grande
Luiz Fiaminghi (1958), composição baseada na tradição oral brasileira, Bom Jardim, Rio Grande do Norte
- O Sol lá vem
Tradição oral brasileira (versão instrumental), Bom Jardim, Rio Grande do Norte
- Fugatatá
Luiz Fiaminghi (1958), composição instrumental baseada na tradição oral brasileira, Bom Jardim, Rio Grande do Norte
- Andorinha / Desafio do Azulão / Borboleta
Andrea Stephani (séc. XIV), Codex Mancini ou Codex Lucca, I-La, MS 184, ff. 35v-36 (sécs. XV e XVI, Itália), Itália. Contrafactum a partir do poema de Mário de Andrade, Lenda do Céu / tradição oral brasileira, Bom Jardim, Rio Grande do Norte / tradição oral brasileira, Bom Jardim, Rio Grande do Norte
- Airá da Kem Ké Xorô / Airadákẹ́kẹ́ṣóró /Fírí ínón
Cantiga da tradição oral afro-brasileira, candomblé ketu (Xangô), Salvador, Bahia / cantigas do candomblé ketu, transmitidas oralmente por Bàbá Leandro Perez (Ilé Aláketú Àṣẹ Aira – Àṣẹ Batistini e Ilé Aláketú Yeye Kare Àṣẹ Ajagunan – TUVT)
- O Gigante / Lá Lá Lá
Tradição oral brasileira, Bom Jardim, Rio Grande do Norte / tradição oral brasileira, Salvador, Bahia
- Êh, Bombo, Chora
Tradição oral brasileira, João Pessoa, Paraíba
- Embolada de Pernambuco (Sábado de Tarde)
Tradição oral brasileira, Goianinha, Rio Grande do Norte. Tradição oral brasileira, Recife, Pernambuco. Tradição oral brasileira, Bom Jardim, Rio Grande do Norte. Tradição oral brasileira, Bom Jardim, Rio Grande do Norte
- A Pisada é Essa / Toada de Cego / Baiano de Despedida
Tradição oral brasileira, Bom Jardim, Rio Grande do Norte. Tradição oral brasileira, Recife, Pernambuco / tradição oral brasileira, Ceará / tradição oral brasileira,Bom Jardim, Rio Grande do Norte
Sobre Grupo Anima
Em sua trajetória, o Grupo Anima construiu ao longo de mais de 35 anos uma sólida e premiada carreira no Brasil e no exterior, divulgando e expondo o imaginário popular musical do Brasil. Ao todo são nove álbuns e espetáculos musicais autorais, dois coletivos, um DVD e um áudio visual. Recebeu por esses trabalhos prêmios no âmbito da música erudita de câmara e também da música popular. Além dos espetáculos em concerto, o Grupo Anima também realiza oficinas e cursos, expondo sua dinâmica de criação musical coletiva, as matrizes e matizes da música do Brasil. O gruponasceu no Brasil há três décadas e meia como resultado de reflexões sobre a performance musical e a memória musical brasileira. A estrutura inicial do grupo teve como base o movimento de música antiga cujos princípios interpretativos norteiam até hoje o grupo, e foram ampliados e transformados através das múltiplas formações pelas quais passou, desde então. A partir de 1991, a rabeca brasileira assumiu papel central na formação do Anima, através do músico, compositor e pesquisador José Eduardo Gramani (1944-1998). Com a introdução desse instrumento originado na tradição brasileira rural de diversas regiões, o grupo ampliou o âmbito da performance musical histórica e de seu repertório, adicionando ao instrumentário histórico europeu (harpa trovadoresca, cravo, órgão portativo medieval e flautas-doce), vozes e idiomas como os da viola de arame, da viola brasileira de dez-cordas, a percussão brasileira, a africana e as flautas indígenas brasileiras. Os espetáculos do Anima são o resultado de trabalho de pesquisa em performance baseado na música de comunidades não letradas, preferencialmente afastadas de centros urbanos no Brasil e na música da Idade Média e do renascimento europeus. O constante diálogo tecido pelo grupo entre a etnomusicologia, a musicologia histórica e o teatro contemporâneos, conduz ao palco um roteiro musical onde se faz presente o tempo não linear, encarando o momento da apresentação e o palco como um território-tempo ritualizado, próprio para a realização musical em um sentido pleno. Sobre o palco a Idade Média e a Renascença europeias encontram-se na música da tradição oral brasileira, ambas atualizadas nos arranjos musicais construídos coletivamente pelos seus músicos e também propostos por integrantes do Grupo e convidados. O repertório é estruturado e alinhavado a partir de uma temática central em uma intersecção espaço-tempo-instrumentos, através de uma linguagem camerística onde está presente sobre o palco o diálogo constante entre passado e presente, cultura popular e cultura erudita. Em 1997 lançou o álbum Espiral do Tempo, que foi vencedor do Prêmio Movimento de Música Brasileira,na categoria melhor CD instrumental e do Prêmio APCA – Associação Paulista dos Críticos de Arte, na categoria melhor grupo de música de câmara, em 1998. Em 1999, dentro das comemorações de 500 Anos do Descobrimento do Brasil, gravou e dirigiu o CD Teatro do Descobrimento, com concepção e direção da cantora Anna Maria Kieffer. Em 2000 o disco Especiarias foi vencedor do V Prêmio Carlos Gomes de música erudita, concedido pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, na categoria melhor grupo de música de câmara. Em 2003 lança o álbum Amares. Em 2006 e 2008 são lançados CD e DVD Espelho, ambos patrocinados pela Petrobrás. Em 2010/2011 lançou o CD, homônimo ao espetáculo, Donzela Guerreira, patrocinado pelo Selo SESC do Estado de São Paulo. O álbum Encantaria de 2017 recebeu o Prêmio Funarte de Música Brasileira, concedido pelo Ministério da Cultura. Em novembro de 2021, o CD Mar Anterior ganhou lançamento em áudio visual do espetáculo integral. Grupo Anima ganhou a Prêmio APCA VoPrêmio Carlos Gomes (Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo), Prêmio Funarte de Música Brasileira e Prêmio Movimento de Música Popular Brasileira Proac em 2021 e 2024.